Contrariedade de Moro revela que há algo de Savonarola no seu sistema

Marcelo D. Sants/FramePhoto/FolhapressJuiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, participa do 5º Fórum Nacional Criminal dos Juízes Federais, em São PauloJuiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, durante fórum de juízes federais, em São Paulo

O professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite publicou um artigo na Folha comparando o juiz Sergio Moro ao frade dominicano Girolamo Savonarola, que barbarizou a vida de Florença no final do século 15. Era uma época em que os pregadores tinham a popularidade dos roqueiros de hoje. Visionário, demagogo, moralista e ascético, Savonarola incendiou a cidade abatida por uma invasão estrangeira, pela fraqueza de sua elite, mais a peste, fome, misticismo e superstições.

Savonarola foi excomungado pelo papa Alexandre 6º (pai de pelo menos oito filhos) e, quando sua liderança popular enfraqueceu-se, acabou preso, torturado, enforcado e queimado. (Tempos depois apareceram flores no lugar do patíbulo. A retórica papista patrulhou a memória do frade com tamanha eficácia que a cidade de Florença levou quatrocentos anos para homenageá-lo com uma lápide no ponto da praça onde mataram-no.)

Cerqueira Leite concluiu seu artigo rogando uma praga: “Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes. Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira”.

Dias depois Moro respondeu ao professor com uma carta. Curta, dizia o seguinte:

“Lamentável que um respeitado jornal como a Folha conceda espaço para a publicação de artigo como o ‘Desvendando Moro’, e mais ainda surpreendente que o autor do artigo seja membro do Conselho Editorial da publicação. Sem qualquer base empírica, o autor desfila estereótipos e rancor contra os trabalhos judiciais na assim denominada Operação Lava Jato, realizando equiparações inapropriadas com fanático religioso e chegando a sugerir atos de violência contra o ora magistrado. […] Embora críticas a qualquer autoridade pública sejam bem-vindas e ainda que seja importante manter um ambiente pluralista, a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual, deveriam ser evitadas, ainda mais por jornais com a tradição e a história da Folha“.

Não foi uma carta, mas uma sentença. Moro tem todo o direito de achar que o professor atacou-o com “estereótipos e rancor”, mas foi com estereótipos e rancor que respondeu. Cerqueira Leite fez um paralelo histórico e Moro não discutiu uma só virgula do artigo. Lamentou que o jornal publique coisas desse tipo e, pior, que mantenha o professor no seu conselho editorial. Despediu-se ensinando: “A publicação de opiniões panfletárias-partidárias […] deveriam ser evitadas”. Como? Savonarola publicava seus sermões e queimava os dos outros.

Moro viu demônios quando disse que Cerqueira Leite chegou “a sugerir atos de violência contra o ora magistrado”. O papismo dizia que Savonarola era doido, mas o professor não sugeriu que se enforque o “ora” magistrado. Moro se queixa de que a comparação com Savonarola não teve “base empírica”. O que isso quer dizer, não se sabe.

O artigo de Cerqueira Leite foi mais uma opinião no grande debate aberto pela Operação Lava Jato. A contrariedade de Moro produziu uma surpresa: há algo de Savonarola no seu sistema.

ERRO

Estava errada a informação aqui publicada segundo a qual Michel Temer acumula o salário de presidente da República com o de procurador aposentado do Estado de São Paulo (R$ 21 mil líquidos).

Aplicando todos os redutores e limites que a lei determina, Temer recebe mensalmente R$ 24 mil.

CURITIBA

Condenado a 23 anos de prisão, o poderoso comissário José Dirceu teve mais um habeas corpus negado pelo ministro Teori Zavascki. Aos 70 anos, ele é um detento exemplar no presídio de Pinhais, no Paraná. Conformado, lê muito e recebe visitas semanais da mulher. Para quem viu o filme “Papillon”, com Steve McQueen, ele ficou parecido com o sereno falsário Dega, vivido por Dustin Hoffman.

A cana de Pinhais é dura. A vigilância chega a impedir a entrada de comidas onde os policiais podem suspeitar que haja chips escondidos.

SAN TIAGO DANTAS

Está chegando às livrarias o volume de “Escritos Políticos” de San Tiago Dantas. Reúne 113 textos de artigos e palestras produzidos entre 1929 e 1945.

O livro foi organizado pelo advogado Pedro Dutra, a quem se deve o resgate dessa grande figura. O mineiro San Tiago foi um dos maiores símbolos da elite intelectual, política e econômica do século passado. Foi do fascismo ao reformismo do governo João Goulart, a quem serviu como ministro das Relações Exteriores e da Fazenda. Advogado brilhante, perseguiu cultura, dinheiro e poder. Conseguiu a cultura que quis e o dinheiro que precisou, mas tropeçou na corrida pelo poder.

Pedro Dutra já publicou um premiado volume com a biografia de San Tiago até 1945 e está trabalhando no segundo.

Madame Natasha, o juiz e o professor

Madame Natasha concedeu uma bolsa de estudos conjunta ao professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite e ao juiz Sergio Moro. Ambos chamaram o frade Girolamo Savonarola de “fanático”. Natasha não discute a figura do dominicano, a quem detesta porque não gostava de festas e era muito feio. Para a senhora o problema está no uso da palavra “fanático”. Ela é usada pelos poderosos para desqualificar coisas ou pessoas relacionadas com o andar de baixo. Savonarola não era fanático. Foi um radical, precursor da reforma da Igreja. O frade foi enforcado em 1498 e, em 1517, Martinho Lutero rachou a Igreja, afastando-se do luxo e da corrupção vaticana.

No Brasil foram “fanáticos” os miseráveis de Canudos e os posseiros do Contestado. Em 1974, a palavra foi usada pelo general João Baptista Figueiredo para qualificar jovens guerrilheiros do Araguaia que eram assassinados após se renderem às tropas do Exército.

Fonte: Colunista

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2016/10/1823204-contrariedade-de-moro-revela-que-ha-algo-de-savonarola-no-seu-sistema.shtml

http://oglobo.globo.com/brasil/o-juiz-moro-o-frade-savonarola-20297890

elio gaspari

elio gaspari

Nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por ‘As Ilusões Armadas’. Escreve às quartas-feiras e domingos.

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